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Jackie, do Gartner: acredita que estudos avançados com o cérebro poderão ajudar nos tratamentos psicológicos
crédito: Divulgação
Pearson, futurista independente: “Já são possíveis ligações entre chips e nervos que possibilitariam um novo tipo de comunicação”
O que você pensaria se alguém te propusesse fazer um download das informações armazenadas em seu cérebro? Ou mesmo se sua seguradora de saúde lhe oferecesse a possibilidade de implantar um chip que, via rede sem fio, enviaria informações sobre o estado do seu corpo, coisas do tipo: nível de glicose, reagentes, colesterol, pressão arterial, entre outros? São situações que nos habituamos a ver na ficção e que, no que depender de muitos pesquisadores, podem se converter em realidade. Quando? No longo prazo, dizem, mas muitos deles acreditam que, já em 2020, teremos provas reais destes desenvolvimentos, sobretudo, com a evolução da tecnologia de inteligência artificial.
Especular sobre o futuro é algo corriqueiro. Quem nunca se arriscou em uma previsão? Observa-se uma tendência de o ser humano querer se antecipar ao que está por vir, como se isto ajudasse a preparar a humanidade para as novas eras. E nesta seara orbitam diversas previsões, que vão do fim do mundo à animação Os Jetsons, com carros voadores, empregadas robôs, máquinas que fornecem pratos prontos, videoconferência em todos os lugares, entre outros. Até nas empresas existe esta necessidade, o que justifica os milhões investidos pela indústria de TI em soluções de inteligência.
Em meio a tantas especulações, expressões como inteligência artificial (IA), ciborgue ou transumano, implantação de chips, análise preditiva, entre outros, passam a integrar mais e mais o vocabulário cotidiano, principalmente das academias e centros de pesquisa. No caso do transumanismo, filosofia ou modo de pensar que visa à concepção de um ser humano mais poderoso, a tecnologia seria um dos pilares para garantir a melhoria da qualidade de vida ou mesmo potencializar as capacidades do homem. Para produzir esta reportagem, a InformationWeek Brasil conversou com especialistas espalhados pelo mundo que debatem esta temática ou estudam as diferentes interações tecnologia/ser humano. Há um ideário sobre o ser perfeito, a eterna busca da imortalidade ou de alguém com capacidades ampliadas. Embora seja algo praticamente inconcebível sob alguns aspectos, muito do que é discutido tem fundamento e pode se tornar realidade. Como frisa Jackie Fenn, vice-presidente e membro do conselho de tendências emergentes do Gartner, tecnologia e transumanismo andam lado a lado. A especialista comenta que, de certa forma, tudo o que é feito no mundo tecnológico o é para ajudar a melhorar a vida das pessoas. “Não podíamos voar e criamos aviões. Tecnologia, e incluo aí a TI corporativa, vai ao encontro dos objetivos do transumanismo e da necessidade de melhorar a vida dos indivíduos. Muitas coisas que os humanos não fazem ou não as fazem bem podem ser melhoradas. Você não pode memorizar tudo e as buscas no Google te ajudam neste tipo de tarefa. Acho que, no futuro, podem surgir inovações atuando em áreas onde o homem não está e poderá estar, dando novos sentidos, visão mais completa, sensações para reagir melhor a determinadas situações.” Seria realmente um passo muito interessante. Um tema bastante discutido e alvo de previsões no passado é a troca de informações cérebro-cérebro e cérebro-máquina, uma espécie de download e upload de dados. Assim, a capacidade de guardar e recuperar acontecimentos seria imensa, abrir-se-iam novas possibilidades em diversas frentes, até em segurança pública. O futurista independente Ian Pearson – hoje trabalhando junto à consultoria Futurizon, sediada na Suíça, e que, por 16 anos, atuou fazendo projeções para a British Telecom – já previu a possibilidade de baixar informações do cérebro.
Dilemas éticos
Hoje, ele prefere não usar o termo download, mas continua acreditando numa evolução das conexões e interações com o universo do cérebro humano. “Nos próximos quatro ou cinco anos poderemos ter alguns tipos de conexões mais avançadas. Há muito coisa acontecendo. Já são possíveis ligações entre chips e nervos que possibilitariam um novo tipo de comunicação. Mas aguardamos mais avanços. Você teria a possibilidade de reproduzir sensações e gravá-las também”, divaga.
Entretanto, pairam sobre projetos deste tipo desafios e barreiras que vão além da tecnologia e esbarram em dilemas éticos. Como testar este tipo de intervenção? Mesmo quando se fala em implante de um chip comum para localização ou mesmo monitoração de alguns sentidos, o debate é tenso. Imagine, então, quando se tratar de algo que provocará tal revolução, permitindo, em certo grau, ler a mente humana de forma completa? Tudo isto suscita uma discussão que envolve investimento em pesquisa e desenvolvimento, atuação multidisciplinar, transformação dos hábitos de vida, melhora da qualidade de vida, economia global e, sim, poder. “Os devices estariam conectados e enviariam mensagens ao cérebro. Há grande potencial em torno disto. Não é exatamente upload e download, mas o uso mais adequado dos dados, você teria uma extensão do cérebro. E muito da sua memória já está do lado de fora, assim, não seria um download, mas extensão das capacidades. Mas existe aí um desafio de engenharia. As conexões são complexas. Outro dilema está relacionado aos experimentos, não podemos fazer isso diretamente em humanos e animais são muito diferentes”, relata Pearson.
A VP do Gartner, consultoria que há alguns anos colocou o transumanismo em uma lista de tendências, também enxerga muitos desafios, mesmo de ordem tecnológica, mas concorda com o futurista sobre as possibilidades que se abririam com essa nova frente, até a psicologia poderia se beneficiar. Talvez, ao resgatar fatos no cérebro de uma pessoa, o tratamento de um paciente fosse mais eficaz.
Passeio pela ficção
Prever o futuro e vasculhar o cérebro são situações presentes em filmes como O Pagamento (Paychek, título em inglês), de 2004, e Minority Report, de 2002. No caso do primeiro, Michael Jennings, vivido pelo ator Ben Affleck, aceita uma proposta de um grupo onde concorda em ter apagada a memória relativa ao período de serviços prestados, neste caso, três anos. Ao fechar o acordo, ele não sabia estar em meio a um esquema que envolvia roubo de ideias. Passado o período, retomaria a vida normal, mas, para surpresa, o FBI já o aguardava. Na sala de depoimentos, os policiais tinham à disposição um ferramental capaz de ler a mente humana. Não falamos de detector de mentira ou coisa que o valha, mas algo que extrai até mesmo imagens. Com o equipamento, as autoridades constataram que parte da memória havia sido deletada. Todo o alvoroço criado em torno do “serviço prestado por Jennings” tinha um propósito, ele havia criado uma máquina capaz de prever o futuro, tudo isso, baseado em uma junção de diversas tecnologias tendo como base a inteligência artificial. Seríamos, então, capazes de produzir uma máquina mais poderosa que o próprio homem? Haveria interesse nessa questão?
No filme, prevendo a possibilidade de desastres que se seguiriam com a tecnologia caindo em mãos erradas, o personagem faz de tudo para destruir a invenção. Na ficção, a máquina permitia, por exemplo, se antecipar a uma guerra. Para o futurista Pearson, algo deste tipo seria perigoso. “Se fizermos uma máquina realmente inteligente, pode ter benefícios, mas, ao mesmo tempo, produzir coisas que não entenderemos. Não vejo como garantir segurança nisso e não acredito que devamos fazer tal coisa. Sendo ela mais inteligente, como daríamos ordens? Também não sabemos como isso seria usado.” Tais invenções teriam poder de causar diversos problemas de ordem global. Se bem que, como frisa o especialista, não precisamos esperar 20 ou 30 anos e a chegada de ciborgues ultramodernos para ter a interferência da tecnologia na ordem das coisas. Ele usa como exemplo a própria revolução que ocorre nos países árabes. A internet, tecnologia que alguns comparam à revolução industrial por todo seu impacto, associada ao poder das redes sociais provocou protestos em cadeia.
Montando o quebra-cabeça
O bem e o mal estão lado a lado nesse tipo de discussão, uma vez que o uso inadequado pode produzir efeitos desastrosos. Temos aí o exemplo da energia nuclear, tão em alta com após o tsunami no Japão. E da mesma forma que medos e preocupações cerceiam debates sobre máquinas potentes, eles pairam sobre transumanismo. O sonho da imortalidade ou de uma vida livre de doenças sempre atraiu as pessoas. Ao mesmo tempo, ninguém sabe o que isso pode causar.
Pesquisadora do tema há anos e membro da associação Humanity+, Natasha Vita-More, que defende tese de doutorado na Universidade de Plymouth, no Reino Unido, abordando a questão do transumanismo, trabalha o tema mais sob a ótica da saúde, do autoconhecimento e tendo a tecnologia como aliada neste processo. “Há muito financiamento para saber o que acontece em nosso corpo quando não estamos saudáveis. O objetivo é saber sobre a possibilidade da doença antes de ela se manifestar. Transumanismo chama todos a prestarem atenção em como vivemos, como nos cuidamos, não importa política, ideologia, é algo individual.”
Os conceitos compartilhados por Natasha estão mais relacionados a um estilo de vida que à questão tecnológica em si, mas é importante inseri-los para mostrar a multidisciplinaridade do assunto e o quão complexo é discuti-lo e garantir qualquer ausência de perigo na criação de um super-humano. A associação da qual ela faz parte congrega engenheiros, profissionais de saúde, de TI, de comunicação, todos trabalhando por um norte comum, que é ter um ser humano mais potente. Hoje, se observamos a nossa volta, perceberemos que já vivenciamos uma sociedade em parte ciborgue. Atletas das paraolimpíadas são exemplos. A evolução de componentes mecânicos permite desempenho cada vez melhor. Não queremos dizer com isto – e tampouco os entrevistados – que alguém chegaria ao ponto de substituir uma perna saudável por outra mecânica para melhorar a resposta, mas a questão é abrir a mente para o que está em sua volta e como tudo isso intefere com a sociedade atual.
Ben Goertzel, também membro da Humanity+, tem um discurso diferenciado. À frente de duas companhias – a Novamente LLC, focada no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial, e a Biomind LLC, que trabalha na comercialização de um software de análise de dados biológicos com base em IA – o especialista afirma que, na medida em que se torna mais madura, essa solução pode agregar potencialidades. Mas avisa: “É preciso mais maturidade, conhecimento melhor da questão cerebral para se ter aplicações. Não falamos de negócios para o curto prazo. Mas a TI e serviços em geral devem observar isso, aplicação de IA para análise.”
Hoje, ele toca duas iniciativas separadas e, para isto, conta com algumas parcerias, entre elas, com a brasileira Igenesis. A ideia é “fazer máquinas que pensem e ajudem a viver melhor. São mentes ciborgues que poderão checar o cérebro. Com a tecnologia que temos agora, tentamos identificar genes, proteínas e se antecipar às doenças”, comenta.
Em linhas gerais, ele acredita no uso da tecnologia de um chip implantado para análise de amostras de sangue e sistema nervoso, já existe na essência. Avisa que isto ainda não é usado ainda por questões regulatórias e volta ao dilema ético de não poder fazer experimentos em pessoas. O especialista avalia também que muitos indivíduos não se sentem confortáveis com essa ideia neste momento. Muito do que se discute hoje em relação ao futuro da tecnologia e também à aplicação disso em prol do ser humano ou mesmo ampliando ou fornecendo novas capacidades às pessoas pauta-se por soluções existentes. São peças que, a partir de uma união correta e conexões adequadas, se converterão em uma revolução.
Jackie, do Gartner, acredita que a analogia que mais se adéqua a esta situação é a de um quebra-cabeça. Hoje, as peças estariam orbitando em torno de diversas linhas de pesquisa e, futuramente, se uniriam formando, enfim, o conceito do transumano, uma pessoa com capacidades diferenciadas, levando ao mercado oportunidades ímpares. Saúde seria o setor mais beneficiado pela avaliação geral dos especialistas ouvidos e não apenas por desenvolvimento de novos fármacos ou equipamentos de diagnóstico, mas pela disponibilidade de informações em tempo real que, aliados a um software de inteligência artificial e outros sistemas complexos, permitiriam ações preventivas eficazes ou mesmo prever o surgimento de uma doença. Reduzir-se-ia custos e taxa de mortalidade. Governos poderiam usar tais dados para controle de epidemias e por aí vai.
“Há diferentes peças que se unem para isto. Você tem IA e outras peças envolvidas, não só para transumanismo, mas para o ser humano de forma geral, pode ser em medicina, por exemplo. No caso de saúde, você pode ter mais análises e aplicá-las para ‘gerenciar’ a saúde das pessoas. Saber três meses antes, com base nessas informações, que alguém está sujeito a um ataque cardíaco. Algo que está muito no início, é estudar o cérebro, associado à psicologia, entender coisas que aconteceram antes para direcionar o tratamento, mas isso está muito no início”, explica Jackie.
Oportunidades de mercado
Embora tudo pareça muito conceitual, para algumas coisas já existem ideias de aplicações práticas e uso até pela indústria de tecnologia:
Inteligência artificial, neste momento, é a tecnologia mais próxima de se converter em produtos, como sistemas de data mining, análise preditiva ou, como Goertzel afirmou que já o desenvolve com a Igenesis, algo voltado para avaliação de indicadores de saúde e projeções sobre possibilidade de surgimento de doenças. “Veremos CIOs preocupados cada vez mais com essas funcionalidades”, afirma;
Ian Person enxerga potencialidade na área de games ou mesmo em serviços avançados, sobretudo, com o avanço da nanotecnologia. O especialista avisa que tudo depende muito do setor em que a companhia atua;
O processo de comunicação do ambiente corporativo também é algo que deve melhorar com evolução de diversas tecnologias, entre elas, novamente, a inteligência artificial, aponta Pearson;
Saúde, manufatura e comércio tirariam muitas vantagens, na visão de Jackie, já que teriam em mãos ferramental para previsões, por exemplo, do comportamento do consumidor.
De onde virá o futuro
O mundo ocidental tem investido menos nessas tendências pelo anseio de retorno de investimento rápido. Goertzel, da Humanity+, tem visto um movimento maior no oriente e afirma que Japão, Cingapura e China apostam, principalmente, na robótica. Então, muito do que é imaginado pode vir de lá. Para o futurista Ian Pearson, o futuro deve, em parte, continuar com as interfaces amigáveis a que as pessoas se habituaram e com tecnologias de sensores de movimento como a do Kinect, da Microsoft.
E que empresas farão isso? O futurista vê espaço para os nomes tradicionais como Google, IBM e Microsoft, mas acredita que elas devem perder participação e muita coisa nova surgirá de pequenas companhias. “Acredito num mix, você tem exemplos atuais como Twitter e Facebook, começaram pequenas, nas universidades, e se tornaram enormes. Você verá muitas surpresas de novas companhias e algumas coisas dos nomes tradicionais.”